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Diz à mãe para migar as sopas ...

Diz à mãe para migar as sopas ...

Crimes urbanísticos, evolução, falta de seriedade ou interesses puramente financeiros?

13.03.18 | Paulo Brites

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Uma viagem é sempre um momento de educação sentimental, cultural, visual … Viajamos supostamente para descobrir coisas novas ou mesmo para redescobrir e relembrar locais e “coisas” que já há muito não víamos. De entre as mais-valias que viajar nos trás e nos oferece, sem dúvida, é conhecermo-nos melhor a nós próprios!

Pouco ou nada percebo de urbanismo e dos seus critérios, no entanto, como bom português que sou, tenho a minha opinião sobre tais assuntos! Quer ela seja juridicamente válida ou não, cientificamente fundamenta ou não, esteja de acordo com os pensadores deste pais ou não … seja o que for … 

De regresso da época festiva de final de ano, passei por Portalegre (atenção que nem parei, foi mesmo passagem) deparei-me com um edifício novo, um edifício que em termos arquitetónicos até que é simpático mas o seu enquadramento é quanto a mim, um autêntico “crime urbanístico”! Como já disse, não pela sua falta de qualidade urbanística (porque essa é discutível) mas sim pelo local onde está implantado!

Conheço relativamente bem Portalegre embora já algum tempo que por esses lados não vou. Depois de fazer um breve exercício de memória, a ultima vez que por essa bela cidade circulei foi em 2012 aquando da minha entronização na Confraria Gastronómica do Alentejo, que nesse ano se realizou em Portalegre … pois bem, Portalegre nesse ano de 2012 ainda não tinha tal edifício …

É um edifício que deu origem ou melhor, construído para um hotel! Um hotel temático que embora não conheça, pelo que pesquisei, até que é um espaço interessante e que veio homenagear um grande vulto da cultura portuguesa e portalegrense, José Régio. É um hotel todo ele virado para a memória desse grande escritor. Se é uma boa iniciativa? Claramente que sim!

No entanto para quem deu as devidas autorizações para a construção do edifício e sua “plantação” nessa zona da cidade, que me desculpe, mas é um edifício que nada trouxe de importante ao centro da cidade, bem pelo contrário, é um autêntico crime urbanístico no seu contexto e espaço, nada contra a sua “beleza” arquitetónica … Sim, em minha opinião foi mais um atentado ao nosso Património Urbanístico! Não que o edifício anterior fosse de elevado qualidade ou de riqueza arquitetónica, bem pelo contrário, mas tinha algo de muito importante, marcava uma época, marcava um tempo, marcava um estilo … tinha a sua importância e acima de tudo, o seu enquadramento! Tal como os músicos, escritores, poetas que marcam uma geração e vivencia, também os edifícios marcam essa mesma geração e esse tempo!

Tentei fazer uma pesquisa superficial sobre a lei do urbanismo, os seus critérios e quais as leis de salvaguarda do património nacional, bem como se existe ou não alguma “coisa” que proteja a identidade das nossas cidades, vila ou aldeias em termos visuais e das características delas próprias como riqueza urbanística, cultural ou mesmo visual … claro, para não falar da identidade como Nação … nada! Pouco ou nada consegui ou melhor, cheguei à conclusão que o melhor será ir tirar um curso qualquer, isto só, para perceber o que é da responsabilidade das autarquias e as suas interpretações ou o que é da responsabilidade do Estado central. Nessa pesquisa que fiz, só para perceber qual o organismo que tutela esta “coisa” do património urbanístico … ui, o melhor é tomar um paracetamol qualquer, porque isso vai mesmo dar dor de cabeça!

IPPAR, IPCC, DGEMN, IGESPAR, IHRU, IMC … nem digo nada! Cada um com as suas valências, cada um com as suas funções … cada um com as suas características! Mas foda-se qual o efeito prático dessas merdas todas? Um que se funde com o outro … o outro que se junta a outro …

Bem, para um Português que em termos de formação académica, profissional ou coisa do tipo, não se movimenta no meio como é o meu caso, dirá que … essa merda parece mais um “bacanal” de interesses lobistas que outra coisa qualquer! Será assim tão complicado existir um só organismo público que tutele essas “coisas” todas? Parece que sim! (um dia terei que perguntar a algum conhecido ou amigo que me explique tais “orgias”, porque quero saber o que cada um desses institutos, direções, organismos e ou autoridades faz na realidade … mas isso fica para depois!)

Como alguém um dia disse, “Não existe música nova ou antiga, existe boa música”, também não existem poetas e escritores novos ou velhos, existem bons escritores e poetas … e por ai fora! O importante no meio disso tudo é o seu enquadramento, é o marcar uma determinada época … é o eternizar uma vida, quer ela seja no sec. X, XV, XX …

Tudo tem a sua “temporalidade” e claro a sua “qualidade”, o problema é quando se mistura tudo! É quando não existem critérios para a sua utilização …

Estamos muito preocupados em salvaguardar e falar de ruinas romanas de edifícios do renascimento … enfim de tudo um pouco e, quanto a mim, muito bem! No entanto por este país fora vamos esquecendo e destruindo o nosso legado mais recente, vamos demolindo alguns edifícios, algumas pontes (com ou sem valor, mas completamente enquadrados no espaço e no tempo) e o mais grave, construindo aberrações no seu lugar, não que esses edifícios não tenham a sua beleza, mas porque no espaço não têm qualquer enquadramento!

Vamos por aqui e por ali apagando um pouco de nós próprios … afinal que legados deixamos às gerações vindouras? Se os nossos antepassados tivessem destruído por exemplo as Villas Romanas ou outros edifícios obsoletos … o que teríamos hoje? Sim! Estamos mesmo a destruir um pouco de nós próprios! Estamos a apagar uma época!

Este caso de Portalegre não é o único! Existem muitos … infelizmente! Não irei falar deles, são tantos que só deveria terminar lá para 2054 … mas entretanto, muitos mais irão surgir! Conclusão, nunca mais terminaria …

Existe neste momento uma acesa discussão sobre a construção de um edifício no largo do Rato em Lisboa que já foi apelidado por “Mono do Rato” … um projeto aprovado há 8 anos pela Câmara Municipal de Lisboa …

Quem era na altura o seu Presidente? António Costa! E mais não digo …

Edifícios como este do Hotel José Régio ou do “Mono do Rato” são bem-vindos … mas por favor, em locais que não descaracterizem o urbanismo de uma povoação e sim, num novo espaço que marque e deixe para futuro as tendências urbanísticas atuais! Sim, para que claramente se perceba a nossa evolução e, evoluir não é com certeza “plantar” estes edifícios no centro de uma qualquer povoação!

Evoluir é no mínimo preservar o que nos foi “deixado”! Evoluir é no mínimo respeitar o que existe! É ter critérios para que não se perca nem se apague uma época!

Portanto as reconstruções deveriam ter algum cuidado, critério e acima de tudo, significado!

Que não sejamos um País do 3º Mundo e de uma vez por todas se respeito o nosso património, quer físico, quer cultural!

Por favor Prof. Marcelo, meta mãos a esta merda toda que se passa neste Portugal!

 

Beijinhos …

* Foto "Mono do Rato" - DN

* Foto Portalegre - net 

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