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Diz à mãe para migar as sopas ...

Diz à mãe para migar as sopas ...

Hoje fui à música ...

09.03.18 | Paulo Brites

Ontem do nada e devido a uma pequena troca de opinião sobre o dia internacional da mulher, eis que me lembrei de uma música do JP Simões … será? Terá ele razão? De alguma forma talvez! Se são todos? Claro que não!

 

A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou,

já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou,

ou então morreu; já se acabou.

 

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,

de anarquistas, deprimidos e de artistas, e de autistas

estatelou-se docemente contra o céu.

 

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão,

brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,

pelo seu estilo controverso.

 

A minha geração só se comove com excessos, com hecatombes,

com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,

de reflexos da sua funda castração.

 

A minha geração é a herdeira do silêncio,

dos grandes paizinhos do céu,

da indecência, do abuso,

e um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida

na cegueira do comércio.

 

A minha geração é toda a minha solidão, é flor de ausência, sonho vão,

aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca

e pouca coisa na mão.

 

Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor

do lixo e do descuido, deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai

corroendo a doçura da sua infância.

Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,

que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro

preconceito, que o teu único defeito é ter demasiadas

qualidades e tropeçar nelas.

Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente que és por demais

inteligente para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus,

de fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhores do que antes.

Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada,

com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?

Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração

ou só te resta morrer desintegrada?

 

Mas, minha geração, valeu a trapaça, até teve graça,

tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo,

e a comida estava óptima! O que vamos fazer?

 

JP Simões - 1970

 

Bem … beijinhos e bom fim de semana!