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Diz à mãe para migar as sopas ...

Diz à mãe para migar as sopas ...

Que venha de lá um cozido de grão …

09.07.18 | Paulo Brites

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Conheces a açorda de alho mas não conheces a açorda batida. Conheces a imitação espanhola do Gaspacho alentejano mas não conheces o gaspacho com batatas … conheces a poejada mas não conheces o calducho … conheces o grão mas não conheces o sabor dele aquando cozinhado pelos alentejanos que o produzem e o cultivam há séculos … conheces os parques aquáticos por terras espanholas e reino dos Algarves mas não conheces um “bom” pego alentejano … conheces as novas e incaracterísticas praias fluviais nas margens do lago de Alqueva mas não conheces os rios do Guadiana, moinhos e as maravilhas de um mergulho nas suas águas … e por ai fora!

 

Vamos visitar Paris, Londres, Amesterdão … Berlim e não visitamos as nossas aldeias! Falamos dos alentejanos, dos transmontanos … dos beirões mas não conhecemos o Alentejo, Trás-os -Montes ou as Beiras … 

 

Verdade que o Alentejo é enorme e ser alentejano de Nisa não é o mesmo que ser alentejano de Grândola, como ser alentejano de Ourique não é o mesmo que ser alentejano de Portalegre tal como ser alentejano de Reguengos de Monsaraz não é o mesmo que ser alentejano de Alandroal… “ser” de Beja nada tem a ver com o “ser” de Évora!

 

Muito temos que conhecer, muito temos que aprender mas acima de tudo muito temos que perceber para dizer que gosto dessa ou daquela região ou zona do nosso Alentejo!

 

Porque está na moda, falamos de tradições e tradição vezes e vezes sem conta, sem nos preocuparmos com o seu verdadeiro significado - Tradição é uma palavra com origem no termo em latim traditio, que significa "entregar" ou "passar adiante". A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura.

 

Mas para que se estabeleça como tradição algo ou “alguma coisa”, é sempre necessário bastante tempo para que o hábito seja criado. Diferentes culturas e mesmo diferentes famílias possuem tradições distintas. Algumas celebrações e festas (religiosas ou não) fazem parte da tradição de uma sociedade. Muitas vezes certos indivíduos seguem uma determinada “tradição” ou suposta “tradição” sem sequer pensarem no verdadeiro significado da tradição em questão.

 

Vejo isso em muitas partes e zonas do Alentejo mas sem dúvida, que o ultimo reduto do verdadeiro significado da “tradição da nossa terra” só encontro na margem esquerda do Rio Guadiana. Ali ainda se vê a “rapaziada” brincar nas ruas, ainda se vê as crianças a cantarem modas alentejanas, ainda se vê o avô a construir um “carrinho de rolamentos” para a participação na grande corrida da tarde … ainda se vê a avó cair do tal “carrinho de rolamentos” porque também ela quer brincar … ainda se passa um serão com uma viola na mão a tocar e cantar, quer seja uma moda alentejana, um fado ribatejano ou um dos sucessos dos Beatles … por ai ainda se vê “ao postigo” um aviso escrito à mão com a informação que estou de férias e volto no dia tal às tantas horas … por ai ainda se vai vendo mercearias com 40, 50 ou 100 anos de existência, por ai ainda se vai falando com a dona Maria que está ao fresco á noite, sentada na sua cadeira á porta da sua casa e que, fala com os forasteiro da sua vida e das suas recordações … por ai ainda se fazem “festas” com poucos ou nenhuns recursos mas que são veneradas e vividas por todos os habitantes e mais, contagiam os forasteiros … por ai na margem esquerda do Rio Guadiana ainda se continua a ver, sentir e viver o verdadeiro Alentejo!

 

Felizmente o marketing e a publicidade enganosa ainda não chegou a estas paragens e felizmente que as festas ainda são feitas pelo povo e para o povo! Por ai ainda não se vive aquela treta de ser a Capital de qualquer coisa, como o vinho por exemplo, mas que não existe uma taberna para o provar, fazendo lembrar um restaurante existente em Lisboa que se chama “Rei da Pescada” mas que só vende frango assado …

 

Por ai na margem esquerda do Rio Guadiana ainda é possível beber água num riacho … ainda é possível recuar ao tempo em que a natureza permitia o tal mergulho no “Pego” … por ai ainda se consegue “apanhar” um molho de ervas silvestres para as secarmos e utilizarmos nos nossos petiscos … por ai ainda se vive!

 

Mas sabem … continuem a procurar nos sites de venda de voo baratos, viagens para o estrangeiro que eu continuo a comer uns cozidinhos de grão, uns gaspachos com jaquinzinhos fritos e azeitonas … e dar uns mergulhos no “pego”, tal como deus me enviou ao mundo!

 

Ah … e beber uma boa pinga mesmo não estando na “Capital do vinho” e seus Marketing`s …

 

Beijinhos